
Resumo
- Uma falha de firmware de 2021 na Coldcard gerou chaves privadas previsíveis; ninguém tocou nos dispositivos.
- Entre 30 de julho e 3 de agosto de 2026 foram roubados cerca de 1.816 BTC (entre 114 e 116 milhões de dólares) em quatro ondas.
- A CoinKite, empresa por trás da Coldcard, interrompeu os envios, destruiu o estoque afetado e publicou um guia de migração.
- O caso não afeta o Bitcoin nem outras marcas de hardware wallets, mas reabre a questão da autocustódia frente à custódia em uma corretora.
Uma falha na forma como a Coldcard gerava as chaves privadas de suas carteiras permitiu que alguém reconstruísse essas chaves e esvaziasse contas em mais de 100 milhões de dólares em bitcoin. Veja o que se sabe até agora e o que isso significa se você guarda suas próprias criptomoedas.
Entre 30 de julho e 3 de agosto de 2026 houve um roubo de cerca de 1.816 bitcoin, entre 114 e 116 milhões de dólares conforme a fonte, de donos de carteiras Coldcard, uma das hardware wallets usadas para guardar criptomoedas.
Não foi um hackeamento do dispositivo. Foi uma falha na forma como a Coldcard gerava as chaves privadas desde uma atualização de firmware de 2021, que deixou essas chaves previsíveis para alguém que as reconstruísse sem tocar na carteira.
A CoinKite, empresa por trás da Coldcard, confirmou o problema, interrompeu os envios e destruiu o estoque com firmware afetado. O caso não atinge o Bitcoin como rede nem outras marcas de carteiras, mas reabre uma pergunta que diz respeito a qualquer pessoa que guarde suas próprias criptomoedas: o quanto você está confortável em assumir esse risco sozinho.
Por que o caso Coldcard importa para qualquer dono de criptomoedas
À primeira vista, o caso Coldcard parece um problema de uma marca específica de hardware wallet. Mas virou notícia global por algo além do valor roubado.
Ele expõe um pressuposto que muita gente considera garantido ao escolher como guardar suas criptomoedas: que uma hardware wallet e ter as chaves próprias é tudo de que você precisa para estar seguro.
O fundador da Binance, Changpeng “CZ” Zhao, resumiu o dilema nas redes sociais. Disse que continua acreditando na autocustódia, mas reconheceu que essa decisão coloca toda a carga da segurança sobre a pessoa que a escolhe.
Esse é, no fundo, o tema que interessa a qualquer pessoa que tenha criptomoedas, tendo ou não uma Coldcard: se você guarda suas próprias chaves privadas, um erro do fabricante do dispositivo, e não apenas seu, pode acabar custando seus fundos.
O que é uma cold wallet e o que deveria torná-la segura
Uma cold wallet, ou carteira fria, é um dispositivo que guarda as chaves privadas das suas criptomoedas completamente desconectadas da internet, ao contrário de uma hot wallet, conectada e pronta para uso pelo celular ou computador.
A lógica por trás desse desenho é simples: se um atacante não consegue chegar à sua chave privada pela internet, também não consegue roubá-la remotamente. Essa lógica continua válida contra ataques que dependem de uma conexão.
O problema no caso Coldcard foi outro: a chave privada nunca foi verdadeiramente aleatória desde que foi gerada, então não foi preciso se conectar a nada para reconstruí-la.
O que a Bitso diz sobre escolher entre os tipos de carteira
A Bitso tem um guia próprio sobre os tipos de carteiras de criptomoedas que compara os modelos e explica quando cada um faz mais sentido conforme o valor que você guarda e a frequência com que o movimenta.
Ele não substitui a decisão pessoal sobre como custodiar suas criptomoedas, mas é um bom ponto de partida se o caso Coldcard deixou você em dúvida sobre o seu próprio método.
O que exatamente falhou nas Coldcard
Toda carteira precisa gerar uma seed, uma combinação de palavras que funciona como a chave mestra dos seus fundos, a partir de um processo que deve ser completamente imprevisível.
Segundo o aviso de segurança publicado pela CoinKite, um erro de configuração no firmware da Coldcard, presente desde uma versão de março de 2021, fez com que esse processo usasse um gerador de números por software com um padrão identificável.
É a diferença entre um cofre com uma combinação escolhida ao acaso e outro com uma combinação que segue uma fórmula adivinhável. Um atacante que reconstruiu essa fórmula conseguiu calcular, no próprio computador e sem tocar em nenhum dispositivo, as chaves privadas de milhares de endereços.
Depois esperou que aparecessem fundos para movimentá-los primeiro. A CoinKite não detalhou publicamente a matemática exata por trás do ataque; o aviso técnico completo está disponível no site da empresa para quem quiser revisar os detalhes.
Como o roubo à Coldcard cresceu, onda por onda
O analista Alex Thorn, da Galaxy Research, documentou o avanço do roubo em tempo real. A primeira onda ocorreu em 30 de julho de 2026 e esvaziou 1.083 BTC, cerca de 70,2 milhões de dólares naquele momento, de 1.196 endereços em aproximadamente 41 minutos.
Uma segunda e uma terceira onda, durante o fim de semana seguinte, levaram o total acumulado a cerca de 1.367 BTC, entre 88,6 e 90 milhões de dólares, de mais de 4.500 endereços.
Na manhã de segunda-feira, 3 de agosto, Thorn identificou padrões que apontavam para uma quarta onda em curso, embora tenha esclarecido que se tratava de uma análise baseada no comportamento das transações, sem um relato direto de uma vítima que confirmasse isso ainda.
Com essa onda, o total acumulado chegou a cerca de 1.816 BTC: a CoinDesk calculou algo perto de 114 milhões de dólares e a Fortune, perto de 116 milhões, uma diferença que responde ao preço do bitcoin usado por cada veículo, e não a uma divergência sobre os fundos movimentados.
O que a CoinKite fez e o que fazer se você tem uma Coldcard
A CoinKite interrompeu o envio das Coldcard assim que confirmou a vulnerabilidade, destruiu o estoque com o firmware afetado em suas instalações e contatou diretamente os clientes com pedidos já enviados. A empresa disse estar coordenando com autoridades para identificar os responsáveis.
Se você tem uma Coldcard, a recomendação oficial é atualizar para o firmware corrigido, gerar uma seed completamente nova no dispositivo já atualizado e mover os fundos para essa nova seed.
Instalar o patch por si só não conserta uma seed que já foi gerada de forma fraca. Segundo o mesmo aviso, uma seed criada com pelo menos 50 lançamentos de dado justos e independentes, ou protegida com uma passphrase adicional, mantém uma camada de segurança diante desse problema específico.
A CoinKite esclareceu, ainda, que seus outros produtos, SATSCARD, OPENDIME e TAPSIGNER, usam uma base de código diferente e não estão afetados.
Autocustódia ou corretora: a pergunta que o caso Coldcard deixa
O caso Coldcard não diz que a autocustódia é uma má ideia. Diz algo mais específico: que a segurança de uma cold wallet depende tanto do desenho do fabricante quanto das suas próprias decisões, e que estar offline não é garantia de que todo o resto foi feito corretamente.
Por isso, cada vez mais gente compara esse modelo com deixar os fundos em uma corretora regulada, em que a responsabilidade técnica de gerar e proteger as chaves recai sobre a plataforma, e não sobre a pessoa.
Nenhuma opção é automaticamente melhor: cada uma envolve um tipo diferente de risco e de controle. Vale revisar, sem alarmismo, se é seguro deixar criptomoedas na corretora e como foram geradas as chaves da carteira que você usa, ou se prefere não ter que pensar nisso por conta própria.
Perguntas frequentes
Não, e o caso Coldcard confirma isso. Uma carteira fria reduz o risco de ataques que dependem de uma conexão com a internet, mas sua segurança também depende de o fabricante ter gerado as chaves privadas de forma verdadeiramente aleatória. Se esse processo falha, como ocorreu com a Coldcard, alguém pode reconstruir as chaves sem precisar se conectar a nada nem tocar no dispositivo.
Não há uma resposta única, e vale desconfiar de qualquer marca que se anuncie como a mais segura sem mais detalhes. Essa garantia não depende apenas do desenho: depende da transparência do fabricante diante de falhas como esta, do seu histórico de auditorias de firmware e de decisões do próprio usuário, como gerar a seed com aleatoriedade suficiente, por exemplo com dados físicos, ou protegê-la com uma passphrase adicional.
Em geral, uma cold wallet funciona como uma porta de acesso aos seus fundos, e não como o único lugar onde eles existem: o que realmente os respalda é a seed que você gerou ao configurá-la. Se guardou essa frase separadamente e com segurança, pode recuperar seus fundos em outro dispositivo compatível mesmo que o original se perca ou se danifique. Por isso os guias oficiais, incluindo o da CoinKite neste caso, insistem em não destruir os backups anteriores até confirmar que a migração foi concluída corretamente.
Você não pode auditar o firmware de um fabricante por conta própria, mas pode reduzir o risco: mantenha atualizado o firmware da sua carteira, use uma passphrase adicional (BIP-39) sobre a sua seed e, se gerar uma seed nova, faça isso com um método verificavelmente aleatório, como lançamentos de dado suficientes, em vez de confiar apenas no gerador do dispositivo. Nenhuma dessas medidas garante segurança absoluta, mas adiciona camadas independentes do fabricante.



